“Vamos permanecer calados, recusando nossa própria língua, diante dessa lógica que retrata a força dos princípios coloniais nos cenários de nossa instituição maior: Associação Psicanalítica Internacional?” — questiona Ignacio Paim ao criticar a exigência do inglês em um evento sobre discriminação e colonialismo. Para ele, "é tempo de dar voz à força insurgente de Calibã que nos habita." Calibã é um personagem de Shakespeare em A Tempestade: um habitante da ilha escravizado por Próspero, que o obriga a aprender sua língua e abandonar a própria. Calibã diz: “Você me ensinou sua língua, e meu proveito nisso é que sei amaldiçoar”, fazendo de sua subalternidade uma força para reconstruir a sua voz. Ainda assim, essa voz é empurrada às margens, quase estrangeira a si mesma.
"Se a América é o Outro europeu, quem é o nosso Outro?", pergunta Miriam Chnaiderman. Formados nesse lugar simbólico, em que a própria identidade passa a ser mediada pelo olhar alheio, nos resta buscar o que, em nós, não se reduz ao reflexo, e, então, questionar: quando nos tornamos senhores de nós mesmos?