Manifesto | ExtraCampo 2026
Olhos para o amanhã: recriando o futuro
Davi Tadeu Francisco Ponce
Isac Chateauneuf
A pupila se dilata, caçando, investigando, procurando algo para ver, se fixar, quem sabe, descansar e obter prazer visual…
A imagem que vai renascendo a cada olhar sob outras formas, em outros tempos - tempos futuros inclusos - representa o movimento que a V Jornada Extracampo se dispõe a iniciar e concretizar em 2026.
Diante do mundo contemporâneo, somos colocados a questionar o amanhã e a recriar a imagem de um futuro próximo ou premente, mas que julgamos não conhecer. O olhar sempre agudo e político de bell hooks torna-se meio de exercer o poder que nos é negado, olhando de volta em desafio, em oposição, nos propondo sua reivindicação. Entre expectativa e realidade, evocamos o protagonismo do olhar que transforma quando olha em resistência ao status quo e que re-existe.
O olho, em um primeiro momento, não é este nosso, mas o do obturador, da figura envolta em mistério e fascínio, que olha para um futuro e para o alto, um olho-câmera... Ele não domina, não subjuga, mas disputa. Da sua perspectiva, questiona: para onde estamos olhando? O que estamos buscando? Poderíamos devolver a pergunta face a esse olhador de forma retórica
Um olho-câmera que não é só dele, mas é nosso, deslocado pelo exercício da alteridade. Que nos leva a olharmos com os nossos olhos, mas também nos inquire a olhar pela câmera, dilatando as pupilas, adentrando com o cristalino e a retina as imagens em movimento do cinema, das animações e das demais produções audiovisuais.
A córnea do olho-câmera foca no interesse, registra certa esperança na luta pelas questões emergentes; a pupila controla o quanto de luz queremos que ilumine passados, presentes e futuros, como o diafragma da câmera-olho, oblíqua; a retina captura a imagem, aquela do cenário longínquo, do corpo que resiste, dos elementos, por vezes efêmeros e oníricos, que povoam nosso imaginário. O olho-câmera, mais uma vez, entra em disputa com o nosso olho clínico - cada um querendo ver a sua verdade (ou a sua versão da realidade), aquela que, talvez, grita silenciosamente face às tensões cotidianas.
A resistência revela-se ao negarmos a distopia que nos assombra e pelo fato de querermos abraçar a utopia possível. Vivemos um convite para o novo, o amanhã que gostaríamos de ter. A garota de Napalm, a menina afegã e o corpo do menino sírio compartilham entre si a história que nos espanta, o presente que se tornou passado, com suas chagas e cicatrizes que corroem a humanidade e que não deve ser futuro. O ato de olhar que capta as vidas por trás das imagens, vira mantra. Phan Thị Kim Phúc, Sharbat Gula e Alan Kurdi.
Os sinais nervosos do que vemos e sentimos ao olhar, mais uma vez, tomam o nervo óptico para levar as informações ao cérebro; os sinais nervosos do que o olho-câmera vê usam os sinais do que se passa no mundo para levar as experiências ao cérebro-filme, que formula sentidos e apreende lições, sistematizadas na forma de pensamentos críticos.
As experiências vividas
Esquecidas
Combatidas
Nesse instante, o corpo do menino, da imagem que dialoga com e que representa a nossa jornada, não se fragiliza, não está perdido. Está solenemente imponente, olhando para frente, firme, quase silencioso orbitando o som das palavras, mas ruidoso no grito das imagens que compõem a obra, forçando-nos, novamente, a olhar mais. Convoca-nos a olhar, em três camadas, em três universos, dando a ver o seguinte quadro:
O corpo que vê...
O cinema, o corredor, a narrativa...
O mundo invertido, quase subconsciente...
Um quente, quase febril, diríamos?
Não é só cor, mas a atmosfera... As cores que ardem na imagem, mas que também ardem por dentro. Por “nosso dentro”.
E o vermelho, saltando como um abismo rubro e convidativo ou, quiçá, um nascimento pulsante, aquele do útero, do sangue aspergido. Sangue, memória, projeção, narração, ação.
Assumimos, face à imagem e aos anseios que nos atravessam que é chegado o momento da câmera de Niépce devolver as almas da humanidade. Precisamos agir e enxergar para ver além! O cine-olho de Vertov registra, captura e revela. Assim, somos desafiados a melhorar em uma temporalidade de ritornelos. As curvas do tempo são questionadas e as espirais desse tempo, a partir de Leda Maria Martins e de Fu-Kiau elucidam-se
Não se trata de um movimento de seta, não olhamos para o futuro de modo linear, olhamos para o todo e para um tempo que se move para frente e para trás figurando o futuro presentificado, por meio de elipses que ressignificam e reconfiguram esse olhar a todo o instante. Fundado nos ancestrais, a quem nunca deixamos de reverenciar. A imagem corpo-tela torna-se, assim, uma memória do futuro… Imagem corpo-tela-memória-futuro. Diante dele, precisamos imaginar e recriar o hoje.
A proposta curatorial desafia a função limite - limitada e limitante de um pensamento que emprega significados e contextos ao tender ao futuro, o transforma e o reivindica.. Sendo assim, as perspectivas são renovadas e atingimos a metamorfose que equilibra o nosso sistema.
Olhos para o amanhã, para o ontem e para o hoje.
Arte: Isac Chateauneuf