A consolidação das tecnologias digitais e a expansão das redes de comunicação remodelaram profundamente como sociedades produzem, circulam e interpretam narrativas sobre o passado. Essa transformação, intensificada pela velocidade e pela amplitude das mídias digitais, atravessa tanto os espaços de formação quanto os ambientes de interação social, impactando a própria noção de cultura histórica. É nesse cenário que a História Pública se afirma como um campo vibrante, plural e em constante renovação, voltado a compreender e intervir criticamente nos modos como o passado é mobilizado na esfera pública.
Desde as proposições inaugurais de Robert Kelley (1975), a História Pública ultrapassa a ideia restrita de divulgação científica e propõe uma prática colaborativa, dialógica e socialmente comprometida. Ao historiador cabe não apenas produzir conhecimento especializado, mas estabelecer interlocuções com diversos públicos, reconhecer múltiplas formas de agência histórica e ocupar os espaços — institucionais, midiáticos e comunitários — onde o passado é continuamente vivenciado, disputado e reconfigurado. Trata-se, portanto, de um campo que articula metodologias híbridas e interdisciplinares, capaz de tensionar discursos hegemônicos, problematizar silenciamentos e promover debates críticos sobre memória, patrimônio, identidades e usos públicos da História.
Nesse sentido, a Justificativa do presente evento se enraíza nas urgências contemporâneas. A circulação acelerada de narrativas históricas nas mais diversas mídias (do jornalismo às plataformas digitais, do cinema às produções comunitárias) evidencia a necessidade de formar sujeitos críticos, capazes de identificar estratégias de manipulação, enquadramentos ideológicos e projetos de poder que permeiam a construção pública do passado. Em um contexto marcado por negacionismos, revisionismos simplificadores e pela disseminação massiva de desinformação, torna-se imprescindível fomentar práticas que articulem educação histórica, participação social e apropriações conscientes das tecnologias e humanidades digitais.
Assim, este evento se justifica por sua proposta de integrar reflexão teórica, prática pedagógica e experimentação criativa. Busca-se oferecer um espaço de debate e construção coletiva que valorize a produção de conteúdos históricos mediados por diversas linguagens e mídias, estimulando o protagonismo dos participantes e fortalecendo o compromisso ético-político da História diante das disputas contemporâneas de sentido. Ao promover diálogo entre pesquisadores, educadores, estudantes e comunidades, o encontro reafirma a História Pública como campo estratégico para ampliar o debate social, combater narrativas distorcidas e consolidar uma relação mais democrática, crítica e plural com o passado.