Dando continuidade ao diálogo transmatricial proposto pelo projeto Suleando Winnicott, este encontro tem como objetivo percorrer alguns dos deslocamentos da figura e da função paternas na tradição psicanalítica, partindo das formulações de Sigmund Freud e chegando ao pensamento de Donald Winnicott. Interessa-nos compreender não apenas o lugar atribuído ao pai na constituição psíquica, mas também as transformações históricas, sociais e familiares que atravessam o exercício concreto da paternidade no Brasil.
Na obra freudiana, a figura paterna ocupa diferentes lugares: objeto de amor e ódio, referência identificatória, rival na configuração edípica e participante da formação dos ideais e do superego. O pai não comparece, portanto, somente como presença concreta ou autoridade externa, mas como uma figura implicada na organização da ambivalência, da culpa, dos limites e das relações triangulares por meio das quais a criança amplia seu campo de investimentos para além da relação dual (Freud, 2011a, 2011b).
Ao mesmo tempo, falar em função paterna exige que não se confunda essa função com a pessoa do pai biológicamente atribuido ao ideal cis-normatividade, nem se reduza a experiência da paternidade à imposição da lei, da proibição ou da autoridade. Essa distinção permite perguntar pelas diferentes pessoas, relações e instituições que podem participar das operações psíquicas historicamente reunidas sob a denominação de função paterna.
Em Winnicott, a discussão desloca-se para as condições ambientais necessárias ao amadurecimento emocional. O pai não desaparece da teoria, mas passa a ser considerado também em sua presença concreta no ambiente familiar: na sustentação oferecida à pessoa que exerce os cuidados primários, na participação cotidiana no cuidado, na confiabilidade das relações familiares e na apresentação gradual de um mundo que ultrapassa a unidade inicial formada pelo bebê e seu ambiente.
Esse deslocamento não elimina a triangulação, a identificação ou os conflitos edípicos descritos por Freud. Ele acrescenta a esses processos uma questão anterior e fundamental: quais condições ambientais possibilitam que a criança alcance maturidade suficiente para viver os conflitos, reconhecer a existência de outras pessoas e participar de relações triangulares sem que sua continuidade de ser seja ameaçada? Em Winnicott, a família constitui precisamente um dos espaços intermediários entre os cuidados iniciais e o ingresso da criança em círculos sociais progressivamente mais amplos (Winnicott, 2022, 2023).
A paternidade pode, assim, ser compreendida não como uma posição pronta, garantida pela biologia ou estabelecida automaticamente pelo nascimento de uma criança, mas como um processo de constituição subjetiva. Tornar-se pai implica construir uma relação com a criança real, confrontar as próprias experiências infantis, elaborar expectativas e idealizações e encontrar maneiras singulares de participar do cuidado e da sustentação do ambiente familiar.
Situar essa discussão no Brasil exige interrogar os modelos de paternidade que nos foram transmitidos e aqueles que estamos produzindo. Quais permanências da família patriarcal ainda organizam as relações entre autoridade, cuidado e masculinidade? Como as desigualdades de classe, raça e gênero atravessam as possibilidades concretas de exercer a paternidade? De que maneira as diferentes configurações familiares transformam aquilo que tradicionalmente se denominou função paterna? O que se modifica quando o pai deixa de ocupar apenas o lugar daquele que provê, proíbe ou se ausenta e passa a participar efetivamente do cuidado cotidiano?
Sulear essa discussão significa recusar a importação de uma imagem universal e abstrata do pai, colocando os conceitos psicanalíticos em diálogo com as experiências concretas das famílias brasileiras. Não se trata de substituir um modelo normativo de paternidade por outro, mas de abrir espaço para pensar suas diferentes formas, impasses, possibilidades e transformações.
É nesse campo de questões que situamos o título deste encontro: a paternidade, para onde vamos? Mais do que oferecer uma resposta definitiva, propomos uma conversa entre psicanálise, história e experiência clínica, tomando a paternidade como uma construção permanentemente atravessada pelas transformações da cultura e dos vínculos familiares.
O evento é online e gratuito e integra as atividades da Escola Psicanalítica da Escuta Periphérica (EPEP) e do Coletivo de Pesquisa Ativista em Psicanálise, Educação e Cultura (CPAPEC).
Palestrante convidado
Elias Gattás Neto
Psicólogo e psicanalista. Possui formação em Psicanálise pelo Instituto Brasileiro de Psicanálise, em Bauru-SP. É historiador pela Universidade Estadual de Maringá (UEM) e psicólogo pela Universidade de Marília (Unimar), com especialização em Psicanálise Clínica e Intervenções Clínicas pela UniFatec. Atua como psicólogo clínico e professor de História.
Mediação e comediação
Ayrton Yuri Alves Souza
Psicanalista periphérico e mestrando em Psicologia Clínica pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IP-USP). Membro da Escola Psicanalítica da Escuta Periphérica e do Coletivo de Pesquisa Ativista em Psicanálise, Educação e Cultura. Graduado em Psicologia pela Universidade Nove de Julho e pós-graduado em Saúde Coletiva, com ênfase em Saúde da Família. Membro fundador e egresso da Liga Acadêmica de Psicanálise e Psicopatologia.
Dara Cristina Alves
Membro da Escola Psicanalítica da Escuta Periphérica. Graduada em Psicologia pela Universidade Nove de Julho e membro efetivo da Liga Acadêmica de Psicanálise e Psicopatologia.
Data do encontro: 11 de julho de 2026
Horário: das 16h às 17h30
Modalidade: encontro online, via Google Meet
Acesso: o link será encaminhado, aproximadamente dez minutos antes do encontro, pelo grupo do WhatsApp.
Link para o grupo do WhatsApp: https://chat.whatsapp.com/DGD39nYQjYC2bawXSYhCkr
Referências bibliográficas
FREUD, Sigmund. O eu e o id, “autobiografia” e outros textos (1923-1925). Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2011a. (Obras completas, v. 16).
FREUD, Sigmund. Psicologia das massas e análise do eu e outros textos (1920-1923). Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2011b. (Obras completas, v. 15).
WINNICOTT, Donald W. Família e desenvolvimento individual. Tradução de Marcelo Brandão Cipolla. São Paulo: Ubu Editora; WMF Martins Fontes, 2023.
WINNICOTT, Donald W. Processos de amadurecimento e ambiente facilitador: estudos sobre a teoria do desenvolvimento emocional. Tradução de Irineo Constantino Schuch Ortiz. São Paulo: Ubu Editora; WMF Martins Fontes, 2022.