Anunciamos a realização do 17º Congresso Internacional da Rede Unida, que ocorrerá de 22 a 26 de junho de 2026, em São Luís, Maranhão. O Congresso terá como tema central “Sabedoria e soberania com alegria: a saúde entre os ritmos da docência, trabalho, cultura e participação no sotaque da matraca”. O imaginário sensível que orienta esta edição propõe um exercício de ancestralidade, em diálogo com a cultura popular que transborda na capital maranhense, especialmente no período das festas juninas. Trata-se também de um reencontro com as formulações iniciais da Rede Unida, quando educação, trabalho, gestão e participação social mobilizaram ousadias capazes de tensionar e transformar políticas de educação e saúde no Brasil e em outros países.
Saúde é democracia — uma afirmação que acompanha a trajetória do Sistema Único de Saúde (SUS) desde sua formulação inicial, na 8ª Conferência Nacional de Saúde, passando pela Comissão Nacional da Reforma Sanitária e pela Assembleia Nacional Constituinte. Essa afirmação vem sendo ensejada e se renova, cotidianamente, nos territórios onde movimentos sociais reivindicam políticas comprometidas com o direito ao bem viver. A luta por um sistema único de saúde: integrado e integrador, de acesso universal, descentralizado, com participação popular e capaz de tecer o cuidado e ordenar a formação em saúde tem sido construída em meio a disputas, alianças e reinvenções permanentes.
Em 2026, celebraremos 40 anos da 8ª Conferência Nacional de Saúde, 38 anos da Constituição Federal e 36 anos das Leis Orgânicas da Saúde (Leis nº 8.080 e nº 8.142). Nesse percurso, acumulamos avanços importantes na ampliação da cobertura da atenção à saúde nos territórios e por meio de redes de atenção, com consolidação da atenção básica e estruturação da atenção especializada. Retomamos políticas orientadas por evidências científicas e a interculturalidade nas práticas cuidadoras. Recuperamos a cobertura vacinal após anos marcados por restrições e negacionismos, ampliando os pontos de acesso e o diálogo com a população. As Conferências de Saúde mantiveram sua regularidade, mesmo em contextos de forte tensão política, reafirmando o papel da participação social e da gestão descentralizada na defesa do SUS.
Ao mesmo tempo, é preciso reconhecer que cada avanço, cada retrocesso contido e cada limite estrutural persistente ou restrição imposta resultaram de correlações de força em disputa. As forças de retrocesso se multiplicam em diferentes direções e territórios, o que evidencia a necessidade de revitalizar alianças locais e translocais. Já não basta defender direitos humanos e a preservação ambiental: é fundamental ampliar a complexidade das respostas dos sistemas universais de saúde e construir conexões que atravessem fronteiras e continentes.
O cotidiano impõe desafios cada vez mais complexos ao SUS. A violência persiste e se intensifica, tornando ainda mais visíveis as violências de gênero, os efeitos da heterocisnormatividade e do racismo, que atravessam relações interpessoais e incidem sobre mulheres, a população LGBTQIAPN+, pessoas idosas, crianças, populações periféricas e indígenas. Soma-se a isso o preconceito dirigido a usuárias e usuários da rede de atenção psicossocial, às pessoas acometidas por doenças que seguem negligenciadas, bem como às populações migrantes e refugiadas. As crises ambientais, cada vez mais frequentes e agressivas, produzem vítimas, tensionam os sistemas de saúde e evidenciam o esgotamento de modelos predatórios de ocupação do ambiente — lição reiteradamente ensinada pelas populações tradicionais e ancestrais.
Diante desse cenário, fortalecer a democracia implica sustentar a soberania de nosso povo, de nossa nação, de nossa cultura e de nossas linguagens. Soberania compreendida não como isolamento, mas como capacidade coletiva de afirmar projetos de vida, cuidado e futuro. Implica, igualmente, afirmar a sabedoria como valor político, reconhecendo que o direito à saúde e à vida se constrói na composição de múltiplos saberes — científicos, populares, ancestrais, territoriais — e não apenas a partir das ciências régias ou de epistemologias únicas. Nesse horizonte, a alegria assume centralidade: não como adorno, mas como força vital e revolucionária, expressão das potências de vida e da capacidade de lutar pelo que vale a pena, de sustentar a democracia e de produzir inclusão. Torna-se, assim, tarefa inadiável tornar visíveis as vantagens e a urgência de preservar os direitos humanos e de cultivar uma cultura democrática, diversa e inclusiva. A magnitude desses desafios nos convoca a retomar temas e abordagens que atravessam a trajetória da Rede Unida e do SUS, reafirmando o encontro entre educação e trabalho como eixo central para renovar saberes e práticas nos territórios, atualizar a cultura institucional e recolocar em pauta a educação permanente em saúde, a integralidade do cuidado, a gestão descentralizada e a participação social nas políticas públicas.
Esse movimento precisa ocorrer no Brasil e em redes translocais, capazes de fortalecer simultaneamente a formação e o trabalho em saúde, a democracia e a soberania, em um tempo marcado por guerras, disputas transnacionais e pela cobiça sobre riquezas naturais. Mais do que em outros períodos, o desafio atual é enfrentar essas questões com alegria, criatividade e invenção, tecendo diálogos interprofissionais, com saberes científicos, mas necessariamente com saberes locais, com os territórios onde a vida se produz, com a arte, a cultura e formas não abusivas de relação com o trabalho.
A Rede Unida, fiel à sua história, segue colocando em circulação temas necessários e oportunos, articulando saberes diversos e reconhecendo práticas profissionais e culturais como produção do humano em relação, indissociável da vida, dos valores e dos múltiplos seres, humanos e não humanos, que — por meio da educação e da saúde — compõem territórios vivos. Estamos planejando um congresso diverso e inovador.
Partimos de Santa Maria em um contexto marcado pela emergência climática, que não nos impediu de produzir conhecimento, movimentos e solidariedade com as populações afetadas pela maior crise climática vivida no Sul do Brasil. O chá de macela oferecido pela comissão local, como ensina o forte e seguro saber popular, cuidou de nossos males. Agora chegamos a São Luís, na transição entre o Norte e o Nordeste, na Amazônia Legal, durante as festividades de São João — santo protetor dos enfermos e da amizade. Saúde e vínculos interpessoais são sempre trabalho vivo em ato, produtores de redes.
O ritmo da matraca maranhense, instrumento de percussão emblemático dos folguedos juninos, afirma pertencimento, presença, participação e voz coletiva. Nascida da artesania popular, talhada em madeiras nativas colhidas com respeito aos territórios, aos tempos da natureza e aos ciclos da vida, a matraca guarda saberes ancestrais que não se separam do corpo, da festa, do trabalho e do cuidado. Sua musicalidade é mais que som: é conhecimento ritmado, memória encarnada, batida que organiza passos, coreografias e encontros, pulsação que se alinha ao coração que bate, à vida que insiste e à alegria que resiste. Ao soar, a matraca convoca os viventes à participação ativa, inscrevendo a saúde no canto, no movimento e na celebração, ritmando cuidados, sustentando a alegria e produzindo aprendizados coletivos em trocas de saberes que se fazem em redes locais, nacionais e internacionais.
Em sua 17ª edição, o Congresso Internacional da Rede Unida contará com ampla diversidade de atividades, organizadas em eixos como trabalho, gestão, atenção, cultura e educação, com távolas, rodas de conversa e uma extensa rede de atividades internacionais.
Convidamos todas as pessoas a estarem conosco. Estamos construindo um congresso vivo, plural e afirmativo — para compartilhar saberes, experiências e futuros possíveis.