Apresentação e Proposta
O Simpósio do Patrimônio Material e
Imaterial é uma realização do Departamento de Patrimônio Histórico (DPH) da
Secretaria Municipal de Cultura de Jundiaí (SMCULT) em parceria com as Faculdades de
Tecnologia (Fatecs) Jundiaí, Itu, São Paulo, São Roque e a Unidade de Pós-Graduação,
Extensão e Pesquisa do Centro Paula Souza. Em 2018, passou a integrar a programação do Mês do
Patrimônio Histórico e Cultural de Jundiaí.
Por ocasião do 7°
Simpósio do Patrimônio Material e Imaterial de Jundiaí, ocorrido no
Complexo FEPASA, entre 22 a 24 de agosto de 2019, como um dos resultados
da experiência buscando projetá-la para o futuro, foi elaborada coletivamente a
Carta de Jundiaí. Na plenária de encerramento daquela edição do Simpósio se
reuniram os membros da comissão organizadora, da comissão científica e
demais participantes para propor e discutir recomendações que foram registradas
nesse documento. Foram elencadas doze recomendações quanto aos estudos,
intervenções e políticas públicas voltadas para o patrimônio histórico cultural
material e imaterial de Jundiaí e região em diálogo com diversos contextos
territoriais, institucionais e epistemológicos.
Nessas recomendações são ressaltadas perspectivas futuras
para a profissionalização na área da cultura, as relações entre cultura e
desenvolvimento local e regional, a ênfase nos lugares de memória, ampliação
dos diálogos interinstitucionais inclusive no âmbito internacional.
Passados sete anos da elaboração dessa carta, na décima
quarta edição do Simpósio do Patrimônio Material e Imaterial em 2026, faz-se
necessário retomar aquelas recomendações e refletirmos sobre os caminhos
trilhados e os que precisamos percorrer, trazendo reflexão, avaliação e novas
luzes para a proposta da Carta de Jundiaí.
Objetivos
Avanços ocorreram, desafios antigos permanecem e novos surgem. É o momento de avaliarmos o alcance das nossas iniciativas, projetos, regulações e intervenções considerando a ênfase no patrimônio industrial ferroviário e nas memórias do trabalho, além da consolidação e ampliação dos interlocutores. Nunca é demais acionarmos a escuta da comunidade em geral, dos educadores, dos pesquisadores, instituições e coletivos que não só fomentam o conhecimento e a preservação dos bens culturais, mas que contribuem cotidianamente para as relações de pertencimento, para a significação e ressignificação dos lugares de memória e para a defesa da cultura como direito de todos.
Acrescentam-se, de maneira brutal, as preocupações com a
emergência climática, com os desastres e crimes ambientais que põem em risco a
existência da biodiversidade, do patrimônio ambiental e da vida de milhares de
seres, recaindo principalmente sobre as populações mais vulneráveis a violência
desse processo.
Os conflitos multifacetados e ampliados em escala local e
global ameaçam a sobrevivência das comunidades tradicionais na luta pelas
terras raras e outras fontes de energia em que não se teme a eliminação sumária
de povos originários e civilizações milenares.
Resultados esperados
O 14° Simpósio do Patrimônio Material e Imaterial ocorre
num contexto de profundas ameaças, buscando contribuir com o conhecimento dos
bens e práticas culturais, com a educação patrimonial e com os necessários
avanços sonhados com a Carta de Jundiaí de 2019. Importante mais do que nunca
conectar as questões do patrimônio de todos, da gente, com as demandas locais,
regionais e globais que apontam para o genocídio, etnocídio e epistemicídio. Se
equivocadamente foi construída pelos saberes hegemônicos a separação entre
natureza e cultura, somos levados a lutar em todas as frentes para o fim dessa
separação.
Eixo 1: Identidade, memórias e manifestações
populares
[...]
mesmo que queimem a escrita, Não queimarão a oralidade. Mesmo que queimem os
símbolos, Não queimarão os significados. Mesmo queimando o nosso povo, Não
queimarão a ancestralidade (Nego Bispo, 2015, p. 45).
O eixo visa suscitar o debate e a reflexão sobre a centralidade das práticas culturais nos territórios, enfatizando a sua importância para a valorização das múltiplas e diversas identidades socioculturais. As festas, celebrações e expressões da cultura popular são compreendidas como manifestações que unem e conectam gerações por meio da transmissão de saberes, fazeres, costumes e tradições que fortalecem a memória coletiva e configuram-se como elementos fundamentais na valorização do patrimônio cultural, em sua dimensão material e imaterial.
Ao enfatizar o reconhecimento e o valor dessas práticas culturais - que englobam múltiplas manifestações, como a música, a dança, a culinária, as expressões artísticas, os rituais, as indumentárias, os elementos decorativos entre outras – evidencia-se o importante papel das comunidades locais como protagonistas na salvaguarda deste patrimônio cultural.
Entre os propósitos deste eixo, destaca-se também
os desafios contemporâneos relacionados à continuidade dessas manifestações
diante das transformações culturais em curso, do processo de mercantilização da
cultura e das tensões entre tradição e inovação e entre políticas
institucionais e práticas comunitárias. Pretende-se também fomentar o diálogo
sobre a relação dessas manifestações culturais com a economia criativa que visa
conciliar o papel dessas práticas culturais na geração de trabalho e renda para
as comunidades locais e dinamizar o empreendedorismo cultural.
Eixo 2: Educação Patrimonial: identificação, valorização e salvaguarda
[...]
Enquanto vocês tratarem o Outro como pobre, e, portanto, como alguém que tem
que ser melhorado, educado, civilizado – porque no fundo é isso, civilizar o
pobre! –, vocês vão estar sendo cúmplices de todo esse sistema de destruição do
planeta que permitiu aos ricos serem ricos (Viveiros de Castro, Entrevista ao
El País, setembro de 2015).
O eixo tem como intuito valorizar a educação
patrimonial como um processo formativo e participativo que contribui para a
sensibilização, identificação, valorização e proteção do patrimônio cultural,
em suas dimensões material e imaterial, articulando saberes acadêmicos e
saberes populares. Pretende-se conhecer e partilhar experiências sobre
projetos, experiências e práticas educativas voltadas à educação patrimonial
que valorizem os saberes locais, as memórias coletivas e as diferentes formas
de expressão cultural, integrando escolas, universidades, instituições
culturais e comunidades. Pretende-se conhecer essas iniciativas que contribuam
para a formação de sujeitos críticos e conscientes de seu papel na valorização
e preservação do patrimônio, bem como identificar práticas que articulem a
preservação e o uso responsável dos bens culturais assegurando a transmissão
desse patrimônio às futuras gerações.
Eixo
3: Patrimônio cultural, turismo e sustentabilidade
A partir do reconhecimento dos objetos na paisagem, e no espaço, somos alertados para as relações que existem entre os lugares. Essas relações são respostas ao processo produtivo no sentido largo, incluindo desde a produção de mercadorias à produção simbólica. (Milton Santos, 2002, p. 45)
Paisagem e espaço não são sinônimos. A paisagem é o conjunto de formas que, num dado momento, exprimem as heranças que representam as sucessivas relações localizadas entre homem e natureza. O espaço são essas formas mais a vida que as anima. (Milton Santos, 2002, p. 66)
Parte-se da compreensão de que as paisagens são resultantes das interações entre sociedade e natureza, expressando modos de vida, memórias, identidades culturais, saberes e atividades produtivas que conferem singularidade aos lugares. Nesse contexto, discutem-se ações e estratégias de preservação que visam articular proteção e gestão patrimonial, conservação ambiental, participação social e sustentabilidade.
Sua
análise requer compreender as relações entre técnica, sociedade e espaço,
incorporando também a dimensão da sustentabilidade como pressuposto para a
preservação do patrimônio cultural, a valorização da diversidade sociocultural
e a construção de territórios mais resilientes diante dos riscos
socioambientais que se acentuam no período contemporâneo.
A
pesquisa científica, a educação patrimonial e a ação extensionista encontram na
paisagem cultural uma relação espaço-tempo repleta de possibilidades e desafios
em que a materialidade da cultura, as relações sociais e o desenvolvimento
urbano e econômico e a conservação ambiental
oferecem amplas possibilidades de análise, interpretação e gestão de
áreas protegidas patrimonializadas.
Essa perspectiva amplia as possibilidades de interpretação e intervenção sobre os territórios, orientando ações voltadas à preservação do patrimônio, e à construção de modelos de desenvolvimento socialmente inclusivos. A articulação entre patrimônio, turismo e paisagem cultural para além dos interesses econômicos imediatos está associada à preservação, valorização e gestão ambiental a partir de abordagens integradas que considerem simultaneamente as escalas local, regional e global.
