13º ENCONTRO DE TECNOLOGIA E CULTURA
Democracia, liberdade e tecnologia para humanos e não humanos: em busca de uma saída
O rastelo parece trabalhar de maneira uniforme. Vibrando, ele finca suas pontas no corpo, que além disso vibra por causa da cama. Para possibilitar que todos vistoriem a execução da sentença, o rastelo foi feito de vidro. Fixar nele as agulhas, deu origem a algumas dificuldades técnicas, mas depois de muitas tentativas o objetivo foi alcançado. Não poupamos esforços para isso. E agora qualquer um pode ver através do vidro como se realiza a inscrição no corpo. (Na colônia penal, F. Kafka)
O condenado era o mais animado, tudo na máquina o interessava, ora espichava o corpo, o indicador continuamente esticado para mostrar alguma coisa ao soldado. (Na colônia penal, F. Kafka)
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Quando o público, nos intervalos do espetáculo, se comprimia junto às estrebarias para visitar os animais, era quase inevitável que passassem diante do artista da fome e parassem um pouco; [...] E não era uma acaso muito frequente que um pai de família viesse com os filhos, apontasse o dedo para o jejuador e, explicasse em detalhe do que se tratava, contasse coisas de anos passados, quando presenciara apresentações semelhantes, mas incomparavelmente mais grandiosas e a crianças, em vista do seu preparo insuficiente na escola e na vida, continuavam sem entender – mas traíam no brilho dos olhos perscrutadores algo dos novos tempos vindouros e mais clementes. (Um artista da fome, F. Kafka)
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Não, liberdade eu não queria. Apenas uma saída; à direita, à esquerda, para onde quer que fosse; eu não fazia outras exigências; a saída podia também ser apenas um engano; a exigência era pequena, o engano não seria maior. Ir em frente, ir em frente! Só não ficar parado com os braços levantados, comprimido contra a parede de um caixote (Um relatório para uma academia, F. Kafka)
Para o 13º Encontro de Tecnologia e Cultura, em que Franz Kafka se apresenta como efeméride, três contos foram eleitos para leitura e debate dentro desta perspectiva apresentada: “Na colônia penal”, “Um artista da fome” e “Um relatório para uma academia”. Nessas três narrativas, o real se manifesta com a força e a pungência do inacreditável. Mas como escapar ao Processo, título de um de seus livros, ao processo esmagador que transfigura discursivamente democracia, liberdade e tecnologia em momentos de exceção para humanos e não humanos?
O fato de que vidas importam não se separa do efetivo exercício da liberdade. Caso contrário se vê repetidamente a catástrofe de animais, humanos, não humanos ou quase humanos em fuga, buscando todos uma saída.
Da classificação à vigilância, da vigilância ao extermínio, a liquidação do dissonante, daquele que escapa à verdade enquanto ordenamento do mundo, encontrará no seu caminho múltiplas formas e técnicas construídas em nome da civilidade, da racionalidade, da produtividade e do progresso que não se distanciam da barbárie.
A defesa e a promoção da identificação total com o existente, com o que é dado, com o poder enquanto tal são inimigas da liberdade, ainda que prometam, sob os auspícios do desenvolvimento econômico, técnico e científico, a democratização da cultura e da educação.
Defender que é possível e necessário abdicar da liberdade para se ter ordem e progresso é uma diretriz comum à república brasileira que navega no mar do autoritarismo, visitando, esporadicamente, ilhas de democracia. No ano de 2024 completam-se 60 anos do golpe militar de 1964, cuja história tem se procurado reescrever com os eufemismos de “revolução” e “movimento”. Mas a democracia chega a ser desejada por quem não a sente como parte da sua própria existência? Assim, é necessário compreender as feridas e cicatrizes de uma democracia que até hoje ainda não fez justiça ao seu próprio conceito.
Ainda neste 2024 ocorre o centenário do falecimento de Franz Kafka (1883-1924), autor austro-húngaro cujo legado é, inquestionavelmente, de alto relevo na história da literatura universal. Na trama do ficcionista da cidade de Praga, capital da República Tcheca, o leitor identifica, com regularidade, sujeitos vitimados por algum tipo de perseguição, circunscritos em espaços sufocantes — daí a dificuldade dessas personagens descobrirem saída para os impasses nos quais se veem enredadas, recaindo sobre seus ombros infortúnios da grandeza do absurdo. É como a não menos absurda sensação atual de se estar sempre em uma dívida interminável com alguém ou alguma coisa, própria para um espetáculo trágico, tendo que assumir uma culpa invisível, sofrendo a violência de uma punição externa ou mesmo da autopunição de não conseguir exercer nem mesmo a simples liberdade do falar, dada sua pretensa condição de inferioridade.
Kafka pôde assistir à Primeira Grande Guerra (1914-1918) e, embora tenha morrido antes de 1945, expressou, em estilo inconfundível, a monstruosidade do holocausto e do fascismo, bem como de suas reproduções posteriores travestidas com ares democráticos nos diversos cantos do planeta.
Evento
13º Encontro de Tecnologia e Cultura da Fatec Jundiaí
Local: Biblioteca Pública Municipal Professor Nelson Foot
Av. Dr. Cavalcanti, 396 – Vila Arens
Data: 3 de junho
Horário: a partir das 9h