12º Colóquio de Arte e Pesquisa do
PPGA-UFES
Arte e ecologias do agora:
corpos e subjetividades dissidentes
entre cultura e natureza
O XII Colóquio de Arte e
Pesquisa do Programa de Pós-Graduação em Artes da Universidade Federal do
Espírito Santo propõe uma reflexão sobre as intersecções entre arte e ecologias
contemporâneas, de modo a situar o debate nas urgências de um presente atravessado
por múltiplas crises. A proposta temática Arte e ecologias do agora: corpos
e subjetividades dissidentes entre cultura e natureza convoca
pesquisadores, artistas e estudantes a pensar os modos como as práticas
estéticas ocorrem e atuam na reconfiguração das relações entre humano e
não-humano, material e imaterial, gesto e tecnologia, natureza e cultura. Nesse
sentido, consideramos a proposta de um espaço de reflexão no qual a arte emerge
como operadora conceitual e sensível, capaz de tensionar tais fronteiras que
atravessam o agora.
O campo das ecologias
contemporâneas na arte se estabelece a partir da compreensão de que a crise
ambiental não se reduz à degradação física
do planeta. Conforme proposto por Félix Guattari, em “As três ecologias” (1990), a articulação entre ambiental, social e
mental constitui uma perspectiva ampliada que enfatiza a indissociabilidade
dessas dimensões. A ecosofia guattariana oferece um marco conceitual para
pensarmos como a arte contemporânea pode desenvolver-se na produção de novos
territórios existenciais, na reorientação dos modos de vida e na criação de
outras sensibilidades perante o mundo do caos climático e tecnológico e das
resistências ancestrais.
Ao permear tais
horizontes, as práticas artísticas contemporâneas têm demonstrado capacidade
singular de articular questões ecológicas com processos de subjetivação,
especialmente quando acionam corpos e subjetividades que resistem aos
enquadramentos normativos. A noção de corpos dissidentes remete àqueles que ultrapassam as hierarquias de gênero, raça,
classe e espécie, com a produção de modos de existência contestadores das
separações historicamente construídas entre cultura e natureza. Essas
corporalidades insurgentes desafiam a epistemologia colonial que sustentou e sustenta a separação entre sujeito e objeto,
humano e animal, orgânico e maquínico, e desvelam espaços para outros modos de
relação e de presença no mundo.
A arte aparece como
potência restaurativa, na medida em que propõe outras relações possíveis entre
elementos historicamente dicotomizados. Entre o concreto e o conceitual, a
produção artística contemporânea explora as materialidades das coisas, ao mesmo
tempo em que investe na criação de afetos e sensações que escapam à captura dos
sistemas de controle. Nas brechas entre o ato de deliberar flusseriano e a
velocidade de automação algorítmica, observa-se a emergência de práticas que
não opõem técnica e sensibilidade, mas que reconhecem, nas recentes mudanças,
possibilidades de criação de agenciamentos e antagonismos positivos. A arte
investiga zonas liminares, nas quais o sensível se constitui na tensão entre
presença e ausência.
Pensar o sensível na arte
contemporânea implica reconhecer que as obras não apenas representam o mundo,
mas produzem experiências que afetam os corpos e transformam percepções. A
criação artística ocorre na produção de perceptos e afetos que excedem as vivências
individuais, de modo a apontar para o que Deleuze e Guattari denominam, no
referencial “O Anti-Édipo” (2010), como máquinas desejantes. Eles nos lembram
de que toda a máquina deseja e todo o desejo é fruto de uma maquinação. Nós e
nossas máquinas não nos limitamos à transmissão de informações ou à comunicação
de mensagens, pois funcionamos como dispositivos de abertura para outras formas
de sentir e existir. O sensível na arte se constitui na relação entre obra e
espectador, na produção de zonas de indiscernibilidade, nas quais os limites
entre sujeito e objeto se tornam porosos.
Em continuidade às
discussões sobre o sensível e as corporalidades dissidentes, pensar o corpo, a
matéria e a finitude aponta para a reflexão sobre a vulnerabilidade como
dimensão estruturante das existências. A arte contemporânea tem explorado a
precariedade da existência e da resistência dos corpos, sua exposição à dor, ao
envelhecimento e à morte, e essas abordagens não se restringem ao corpo humano,
elas se estendem como condição compartilhada por múltiplas formas de vida.
Nessa perspectiva, a finitude deixa de ser compreendida como limite negativo e
passa a constituir-se como condição de possibilidade para pensarmos modos e
formas de cuidado, interdependência e reconhecimento da fragilidade mútua que
atravessa todos os viventes.
Outra dimensão relevante
diz respeito às relações existentes entre o vegetal, o maquínico e o animal,
tais confluências têm orientado práticas artísticas voltadas a tensionar as
fronteiras entre organismos, máquinas e outras formas de vida. Essas experimentações,
muitas vezes marcadas por processos de cultivo e hibridização tecnológica,
deslocam o humano de seu lugar central e afirmam uma visão ecológica mais
ampla. Nesse sentido, podemos nos inspirar tanto na abordagem therolinguística
de Ursula K. Le Guin (2012) quanto na “Autobiografia de um polvo”, de Vinciane
Despret (2022), para expandirmos nossos campos de investigação através da
adoção do termo plural “ecologias”. Dessa forma, tais perspectivas ampliam a
compreensão das ecologias do agora, ao proporem outros modos de coexistência e
de partilha sensível.
Em continuidade às
discussões sobre sensibilidade e corporalidade, pensar as pulsões afetivas na
arte e na sociedade contemporâneas implica reconhecer as dimensões do Eros
marcuseano (1975) e da psicologia dos afetos nos processos de criação. Práticas
artísticas que exploram a afetação dos materiais, investigam as zonas de
intensidade entre corpos e propõem experiências de fruição que excedem a
normatividade dos códigos, constituem territórios de resistência às formas
hegemônicas de regulação do desejo. Nesse sentido, a arte instaura-se na
produção de outros modos de relação com o prazer, que não se restringe aos
circuitos mercantilizados da satisfação, mas investem na criação de
experiências singulares de afeto, presença e partilha.
O Colóquio de Arte e
Pesquisa do ano de 2026 se propõe como espaço de confluência entre diferentes
abordagens teóricas e práticas artísticas que compartilham a compreensão de que
a arte não se separa da vida, mas surge na proposição de formas de existenciais.
As ecologias do agora convocam a pensar modos de como
as práticas estéticas podem contribuir para a criação de outros mundos
possíveis, para a reconfiguração das relações entre viventes e para a invenção
de territórios em que as diferenças não sejam reconhecidas como ameaça, mas
como potencial criador. Dessa forma, os corpos e subjetividades dissidentes que
habitam essas ecologias não se definem por identidades fixas, mas por processos
de devir que mantêm aberta a possibilidade de transformação.
A proposta deste colóquio
se inscreve na urgência de pensar coletivamente os desafios contemporâneos que
atravessam, simultaneamente, a crise ecológica, as desigualdades sociais e os
processos de subjetivação. A arte, portanto, não oferece soluções imediatas,
mas atua na articulação de problemas que nos convocam a pensar de outros modos,
a sentir de outras maneiras e a inventar formas de coexistência que resistam
aos processos de captura e homogeneização. Compreende-se, assim, que as
ecologias do agora constituem ao mesmo tempo, um diagnóstico das condições
presentes e projeção de futuros possíveis, territórios nos quais a diferença e
a multiplicidade podem se manifestar em toda a sua potência criadora.
Referências
DELEUZE, Gilles. GUATTARI, Felix. O Anti-Édipo:
capitalismo e esquizofrenia 1. São Paulo: Editora 34, 2010.
DESPRET, Vinciane. Autobiografia de um polvo: e
outras narrativas de antecipação. Tradução de Milena P. Duchiade. Rio de
Janeiro: Bazar do Tempo, 2022.
GUATTARI, Félix. As três ecologias. Tradução
Maria Cristina F. Bittencourt. Campinas: Papirus, 1990.
LE GUIN, Ursula. The
unreal and the real II (outer space,inner lands). Easthampton: Small Beer Press, 2012.
MARCUSE, Herbert. Eros e civilização: uma
interpretação filosófica do pensamento de Freud. Rio de Janeiro. Zahar
Editores, 1975.